segunda-feira, 8 de abril de 2013

O CAT jovem sonhado e sonhador


                O Projeto CAT – CONHECER, ANALISAR E TRANSFORMAR  a realidade do campo completou em 2012 18 anos de existência.  É um projeto de Educação do Campo que surge do sonho de melhorar a qualidade da educação nas escolas do campo no semiárido baiano.
O CAT busca realizar uma educação que valorize a população do campo, seu trabalho, sua cultura, seus valores humanos e ajudar as famílias a melhorarem suas condições de vida e serem mais felizes, aprendendo a conviver com o semiárido e zelar do meio ambiente, desenvolvendo o senso de criatividade e responsabilidade.
             Nascido em março de 1994, embora gestado em 1993, mais precisamente a partir de novembro de 93, o CAT vem atuando na região sisaleira.
 Após uma pesquisa feita, em 1992, junto a alfabetizandos  jovens e adultos rurais , constatou-se que 65% deles já haviam passado pela escola quando crianças, mas continuavam analfabetos, fruto de uma escola de má qualidade, descontextualizada que não os motivava nem lhe trazia lições para ávida. Então o MOC sonhou em mudar essa realidade. Mas não tinha competência para enfrentar sozinho tal empreendimento. Era muito complicado e o MOC sendo um Movimento de Organização Comunitária se dedicava à educação popular informal e não a formal, como a escola pública.  Mas persistiu no sonho e para pensar juntos numa solução,  convidou a UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana)e sete secretarias de Educação de municípios circunvizinhos de Feira de Santana, nos quais o MOC trabalhava com a educação de jovens e adultos rurais desde 1987. Realizou-se um encontro em novembro de 1993, com  Abdalaziz de Moura do SERTA ( Serviço de Tecnologia Alternativa) de Pernambuco, para conhecer a experiência deles neste campo. Foi a gestação... Continuou-se sonhando em realizar uma experiência semelhante em escolas baiana.
Em março de 1994, destas sete secretarias que participaram da 1ª discussão três toparam começar uma experiência piloto, junto com o MOC e alguns professores/as da Universidade Estadual de Feira de Santana.  Confirmava-se assim, a frase de Paulo Freire: “Um sonho sonhado sozinho permanece sempre sonho; mas o sonho sonhado com outros torna-se realidade”.  Iniciou-se então, a experiência piloto em Santa Luz, Santo Estevão e Valente, com 39 professores/as. Nascia a criança, cheia de vigor e esperança!
E a criança crescia... Eis como foi a sua caminhada através dos anos.                                    
Ano
Parceria
Nº. de municípios participantes
Nº. de Escolas  atendidas
Nº. de Professores envolvidos
Nº. de Alunos matriculados
1994
Em construção e não formalizada
03
32
39
1.037
1995
MOC/UEFS/Prefeituras de Santa Luz, Santo Estevão e Valente
03
36
47
1.365
1996
MOC/UEFS/Prefeituras de Retirolândia, Santa Luz, Santo Estevão e Valente
04
59
85
2.471
1997
MOC/UEFS/Prefeituras de Retirolândia, Santa Luz, Santo Estevão e Valente
04
58
91
2.712
1998
MOC/UEFS/Prefeituras de Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, Santo Estevão e Valente
05
98
144
4.733
1999
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, Santo Estevão e Valente
06
127
189
5.833
2000
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Conceição do Coité, Feira de Santana, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, Santo Estevão e Valente
08
135
194
6.060
2001
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Conceição do Coité, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, Santo Estevão e Valente
07
117
189
4.912
2002
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Cansanção, Conceição do Coité, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, Santo Estevão e Valente
08
120
249
8.000
2003
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Cansanção, Capim Grosso, Conceição do Coité, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, Santo Estevão e Valente
09
211
301
7.631
2004
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Barrocas, Cansanção, Capim Grosso, Conceição do Coité, Nova Fátima, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, Santo Estevão e Valente
11
304
508
11.993
2005
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Barrocas, Cansanção, Capim Grosso, Conceição do Coité, Nova Fátima, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, Santo Estevão, Valente e Municípios Novos em preparação da equipe pedagógica: Candeal, Ichu, Itiúba, Lamarão, Monte Santo, Queimadas, Quijingue e Tucano
19
245
486
11.170
2006
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Barrocas, Candeal, Cansanção, Capim Grosso, Conceição do Coité, Ichu, Itiúba, Lamarão, Monte Santo, Nordestina, Nova Fátima, Queimadas, Quijingue, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, Santo Estevão e Valente
19
646
1.581
20.018
2007
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Barrocas, Cansanção, Capim Grosso, Conceição do Coité, Ibiassucê, Ichu, Itiúba, Lamarão, Monte Santo, Nordestina, Nova Fátima, Queimadas, Quijingue, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, Santo Estevão e Valente
19
687
1.299
33.571
2008
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Baixa Grande, Barrocas, Cansanção, Capim Grosso, Conceição do Coité, Ibiassucê, ,Ichu ,Itiúba, Lamarão, Mairi, Monte Santo, Nordestina, Nova Fátima, Pintadas, Queimadas, Quijingue, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz e Valente
20
645
1.509
25.736
2009
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Baixa Grande, Barrocas, Cansanção, Capim Grosso, Conceição do Coité, Ichu, Itiúba, Lamarão, Mairi, Monte Santo, Nordestina, Nova Fátima, Pintadas, Queimadas, Quijingue, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz e Valente
20
514
1329
27567
2010
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Baixa Grande, Barrocas, Cansanção, Capim Grosso, Conceição do Coité, Ichu, Itiúba, Lamarão, Mairi, Monte Santo, Nordestina, Nova Fátima, Pintadas, Queimadas, Quijingue, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, São Domingos, Serrinha e Valente
22
509
1311

29274
2011
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Baixa Grande, Barrocas, Cansanção, Conceição do Coité, Ichu, Itiúba, Lamarão, Mairi, Monte Santo, Nordestina, Nova Fátima, Pintadas, Queimadas, Quijingue, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, São Domingos, Serrinha e Valente.
21
1.237
1.146
16.505
2012
MOC/UEFS/Prefeituras de Araci, Baixa Grande, Barrocas, Cansanção, Conceição do Coité, Ichu, Itiúba, Lamarão, Mairi, Monte Santo, Nordestina, Nova Fátima, Pintadas, Queimadas, Quijingue, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, São Domingos, Serrinha e Valente.
21
496
957
19.384

Observando  o quadro, podemos destacar alguns pontos:
·         Na abrangência: começamos com 3 municípios e hoje contamos com 21, já houve anos com 22. E foram atingidos até 26 municípios.  Por mudança da gestão política local alguns deixaram de desenvolver a proposta metodológica do CAT. Por ser um projeto desenvolvido em parceria MOC, UEFS e prefeituras, as mudanças de gestores podem provocar mudanças na linha de ação ou nos interesses políticos educacionais locais.  Foi o que ocorreu com, Feira de Santana, Candeal, Santo Estevão, Ibiassusê  e  Capim Grosso. No entanto, já houve nos 18 anos 4 mudanças de  gestores municipais (prefeitos e secretários) e na maioria dos municípios este fato não afetou a continuidade da proposta pedagógica. Alguns municípios continuaram por persistência das /os professoras /es   ou desejo da/o secretario de educação.  Mudam-se os gestores, porém as crianças e as famílias permanecem com os mesmos sonhos de uma educação de qualidade, engajada na vida cotidiana, contribuindo para dias melhores.

·         O maior número de alunos e professores envolvidos no CAT , deu-se em 2006. Por que isto? Coincide com o ano de mudanças da linha de trabalho da assessoria do Projeto CAT (MOC, UEFS). Em 2005, foram preparadas equipes pedagógicas (coordenadores e representantes da sociedade civil) de municípios que estavam iniciando ou pedindo a proposta. Houve 186 horas aulas para formação destas equipes que assumiriam a coordenação em 2006, e seria responsável pela formação dos professores novos na proposta. A assessoria iria ocupar-se mais da formação dos coordenadores, e estes seriam multiplicadores das informações recebidas. Assim, em 2006, todos os coordenadores estavam preparados para sua missão a fim de executá-la com eficiência e segurança. Estava o CAT na adolescência (12 anos) atuando com vigor, serenidade e seriedade. Foi o momento auge do mesmo.  Daí prá cá houve muita rotatividade, nos diferentes municípios, tanto de coordenadores/as quanto de professores/as provocando oscilação no desenvolvimento da proposta pedagógica, exigindo um constante recomeçar do processo de formação. 

·         Nos últimos anos, ocorreu também uma redução no nº de crianças no campo. As famílias estão com menos filhos que na década de 90, algumas levaram os filhos para a escola da cidade, ano a ano vem-se fechando escolas rurais por falta de alunos, bem como vem acontecendo o processo de nucleação reduzindo também o número de escolas do campo.
Nestes 18 anos de vida, o CAT perseguiu o mesmo objetivo, a mesma filosofia, a mesma metodologia e princípios, embora com estratégias diferentes através do tempo, adaptando-se as exigências do momento.
  A realidade é ponto de partida do trabalho pedagógico (Conhecer), o objeto de estudo, (Analisar) o motivo para uma ação mais refletida e organizada para qual  Devolução é o momento ideal de planejamento(Transformar). No entanto, é indispensável  que haja  Políticas Públicas educacional e social permanentes  que atendam as reias necessidades  anseios da população campo. O CAT busca também contribuir na construção destas Políticas Publicas.
O trabalho pedagógico valoriza-se mais os saberes das crianças e de suas famílias, pois “todos ensinam e todos aprendem”. O respeito às diferenças, o amor à terra, o estimulo ao que se é e se tem (autoestima)são princípios básicos  indispensáveis, na ação pedagógica.  Assim, vai-se seguindo um itinerário metodológico e pedagógico, conquistando espaço vencendo barreiras e sonhando com dias melhores para toda a população do semiárido.
                O CAT sonhador... .Nos seus 18 anos, de atuação, luta e resistência nos municípios, o CAT continua  sonhando com:
§  Uma escola do campo cada vez melhor, desenvolvendo habilidades e valores humanos nos seus alunos/as, com mais  amor à terra e à vida;
§   As famílias dos nossos alunos/as usando técnicas de convivência com semiárido, provocadas pela escola e proporcionadas por Políticas Publica decentes (como credito, assistência técnica, acesso à água etc.);
§   A Sociedade Civil organizada dos municípios envolvidos no CAT atuando com todo vigor: estimulando os /as professores/as nas atividades pedagógicas; propondo ações que beneficie a comunidade; colaborando com informações específicas como, agroecologia; agricultura familiar, provocando troca de experiência; participando das Devoluções e; assumindo os encaminhamentos que lhe couberem para melhoria da comunidade.
§  Escolas com Currículo Contextualizado, contemplando a cultural local/regional,  agroecologia /agricultura familiar  e outros anseios dos/as alunos/as e da população local. Que estas escolas tenham diretores/as interessados, apoiando os/as professores/as nas atividades do CAT.
§  Educação do campo  definida como Política Publica do município ( com Lei especifica); assumida pelos gestores com  interesse permanente, compromisso e apoio constante.
§  Os municípios assumindo com autonomia a proposta de educação do Campo e intrecâmbiando suas experiências com outras similares.
§  Que as Universidades da região assumam mais direta e continuamente a formação de professores/as do campo no semiárido.
§  Um semiárido como um lugar possível e agradável de viver bem e feliz, com a sua população assumindo seu destino.
Que o CAT continue bem o seu itinerário numa ação coletiva até atingir todos estes sonhos!


                                                                                                       Francisca Maria Carneiro Baptista
  Prof. aposentada da UEFS orientadora
 da área de Língua Portuguesa do CAT, Técnica e consultora do Programa de Educação do MOC.

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