A IMAGEM FOI RETIRADA DA INTERNET!
Por Ana Paula Duarte [1]
O que muitos chamam de “humor negro”, eu chamo de uma coisa sem cor e que beira a sordidez. E se atribuem a charge acima a humor negro, metáfora, alusão, ou analogia, bem, eu sei o que são cada uma e acredito mesmo que possa ser, mas duvido um pouco quanto a parte do “inteligente”.
O problema, no meu ponto de vista, que é à vista de um ponto, pequeno, porém significativo para mim, é o que há por detrás das entrelinhas, o preconceito entranhado, intrínseco e disfarçado com um pouco de humor e doses de piedade, afinal, é muita pena que as pessoas sentem das pessoas que vivem no Sertão, não é mesmo?
Uma criança que reforça a caricatura e os estereótipos que foram sendo construídos durante décadas do povo sertanejo, considerado ignorante, aculturado e sem perspectivas. Pois bem, uma criança do Semiárido não conhece a cor verde, não é? Mas, eu diria que ignorante é quem não conhece nada, nada sobre o tema em questão e se aventura a discorrer com propostas e chavões do senso comum sobre a causa. Vou tentar trazer algumas informações sobre o Semiárido que eu conheço de vivência.
O Semiárido brasileiro é o que mais chove no mundo, sendo seu índice pluviométrico (que mede a quantidade de chuva) entre 350 e 800 mm por ano, o que não acontece em outros semiáridos pelo mundo, como no Continente Africano, por exemplo. Ou seja, vamos desconstruir a história de que no Semiárido não chove, pois chove sim! A questão é que a chuva que cai não é armazenada, escoa logo, já que é característica do Semiárido a rapidez no processo de evaporação. O que faltam então são Políticas Públicas que auxiliem as famílias que vivem no Sertão a conseguir meios de captação e armazenamento de água. Pois o carro pipa é imediatista e assistencialista, como também um meio bastante interessante de manipulação e obtenção de votos.
É no Semiárido baiano que existe o bioma Caatinga, genuinamente brasileiro e que, apesar do clima seco, possui animais que se adaptam (como o bode, cabra, galinha, abelha) e plantas resistentes (como o umbuzeiro e o mandacaru). O problema está mesmo é na falta de informação sobre como conviver com o Semiárido de modo a torná-lo viável e sustentável. Durante décadas o Semiárido sofreu com o descaso e a exclusão dos governos que prometiam incessantemente um dia acabar com a seca- como se fossem deuses e semi-deuses- sem muito ou nenhum sucesso, já que a seca no Sertão nunca acabará. Mas há como captar água através de drenagens, barragens, irrigação e armazenamento através de cisternas de produção, de placa, tanques, barreiros... Ou seja, o Semiárido não é como se pinta- nude, descolorido e sem vida- ele é o contrário disso, pois a diversidade aí impera!
Escrevo isso com a propriedade de quem andarilha pelo Sertão adentro na Região Sisaleira, mais precisamente. Estamos enfrentando a pior seca dos últimos 40 anos, isso é verdade! E poucos se prepararam para ela... É uma situação lastimável! Animais mortos já fazem parte da paisagem... O cheiro péssimo no ar, os rostos tensos dos que esperam gotas de chuva para poder produzir nos entristecem, é verdade!
Mas ontem, no dia de São José choveu no Semiárido! E quem o conhece sabe, que bastam umas poucas gotas de chuva para que a vegetação fique verdinha, brotada de esperança e fé dos que fizeram novenas e romarias em prol de chuva. Os céus abriram suas compotas e a chuva veio.
Por isso, afirmo que as crianças do Semiárido sabem e muito bem o que é a cor verde, pois o seu Semiárido é o mais verde do mundo! Seus pais produzem alimentos em suas propriedades, nas escolas possuem hortas, as comunidades buscam projetos para obtenção de cisternas para todos, recebem também assistência técnica rural, enfim, lutam para que as tão sonhadas Políticas Públicas cheguem para o povo do Semiárido, tão cidadãos brasileiros quanto os das demais regiões do país.
Este povo está vencendo através da Educação Contextualizada, que é conhecida e reconhecida fora do Brasil, mas que é estranha para a grande maioria dos brasileiros. Uma educação que busca resgatar valores, identidade, saberes específicos e politizar as crianças e as famílias do Semiárido para que enxerguem seu local e modo de vida como viável, de pessoas autônomas e mais, ainda que queiram seguir para outros lugares e caminhos, não se envergonhem nunca do lugar de onde vieram, um lugar que tem a cor verde, que tem esperança e ela está nas suas crianças e na fé do seu povo. O Semiárido tem muita riqueza, entre elas, a maior, é este povo!
Assessora Técnica do Programa de Educação do MOC- Movimento de Organização Comunitária. Graduada em Letras Vernáculas pela Universidade Estadual de Feira de Santana- UEFS.
Muito bom o texto Naidson! Parabéns a todos(as)que fazem o MOC por mais essa iniciativa! Parabéns pelo BLOG!!!!!
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